"O Kazakhstan" nomeado para Óscar de melhor música? (e o meu texto da semana passada para o Expresso)
Até o Cazaquistão parece ter-se rendido ao êxito de BORAT, com o ministro da Cultura cazaque a admitir que o filme colocou o país no mapa (leiam aqui). E agora o hino fictício do Cazaquistão, da autoria de Erran Baron Cohen - irmão de Sacha - está alinhado como possível nomeado para o Óscar de melhor música (no meu wishful thinking já o dava como certo na lista de nomeações; ainda é cedo, mas creio que lá chegaremos). Leiam aqui, e ouçam o tema na FHfm.
Segue o texto sobre BORAT que tinha referido aqui, e que escrevi para a revista Única do semanário Expresso da semana passada.
Cazaquistão, EUA
A par da actualidade, a comédia torna-se cada vez mais dura e politicamente incorrecta. O que ontem era extremo tornou-se hoje mainstream, mercê da repetição que diminui o impacto dos primeiros contactos. O melhor exemplo de habituação pelo visionamento repetido encontra-se nas auto-promoções da SIC Notícias: aquelas imagens reais de crianças estropiadas e gente a ser espancada ao som de What A Wonderful World foram exibidas tantas vezes que já ninguém se ri quando as vê.
Borat Sagdiyev, aliás, Sacha Baron Cohen, humorista nascido em Londres no ano de 1971, percebeu há muito tempo que a realidade é o grande farnel da comédia. Não só no conteúdo, naquilo em que o humor se baseia, ou que simula e exagera, mas também na forma. O documentário falso é recurso com provas dadas no cinema, de This Is Spinal Tap (Rob Reiner, 1984) ao polémico e premiado Death Of A President (Gabriel Range, 2006), que, sem ser uma comédia, dá vontade de rir na cena em que Bush é baleado. Sacha pegou nesta abordagem e levou-a mais longe, explorando ao máximo o potencial provocatório que ela oferece numa espécie de “apanhados do inferno”.
Começou por dar nas vistas em 1998, com The 11 O’Clock Show, programa do qual também eram autores Ricky Gervais e Stephen Merchant. Ganhou autonomia com Da Ali G Show (2000) e o filme Ali G Indahouse (2002). Em Portugal foi visto pela primeira vez no videoclip de Madonna, Music, na pele do wigger Ali G, uma cortesia da rainha da Pop que Sacha haveria de agradecer por duas vezes: nos MTV EMAs de 2005, quando se referiu a ela como “aquele travesti”, e na edição deste ano, em que tentou vender-lhe um bebé baratinho.
Borat, o filme, é um clássico instantâneo, que irá ter repercussões na comédia ocidental como poucos tiveram depois dos Irmãos Marx ou Monty Python. O futuro do humor português também passa por Borat, na medida em que daqui a uns anos vamos assistir ao surgimento de comédias nacionais influenciadas por esta abordagem, que alguma crítica menos alerta irá considerar nova e original. Neste filme, uma delicada fábula sobre a masturbação protagonizada por este repórter cazaque convive com uma arrasadora sátira à sociedade americana. Está a tomar de assalto os EUA e grande parte do mundo, excepção feita ao Cazaquistão, cujo governo não concorda com a imagem que Borat passa do país quando refere, por exemplo, que os judeus são frequentemente atirados para dentro de poços.
Borat é capaz de despertar o pior de cada pessoa que entrevista, às vezes por oposição, outras por contágio. É um agente provocador, sabe quais os pontos a pressionar para obter certas reacções daqueles com quem interage. A comédia resulta involuntária quando o entrevistado, ao reagir de forma genuína, se transforma numa caricatura tão grande ou maior que Borat. A realidade já é uma caricatura de si própria, e, para parodiá-la, Sacha tem de dar mais um passo. Gesto no qual, de forma sempre surpreendente, é acompanhado pelo interlocutor, como o cowboy que, ao ouvir Borat dizer que no Cazaquistão é prática comum o enforcamento de homossexuais, confessa ter esperança que o mesmo aconteça nos EUA.
É redutor pensar na espantosa aceitação de Borat nos Estados Unidos como mais um indicador da viragem que o país supostamente atravessa, relacioná-la com as eleições intercalares em que os republicanos se sentiram como um muçulmano em Abu Ghraib. Grande parte da aclamação do filme por estudantes amigos da pipoca e do barril de cerveja deve-se sobretudo às alusões ao sexo com familiares e animais – prática aliás muito em voga não só no Cazaquistão de Borat, mas também nalguns estados americanos – e à realização de Larry Charles, que dá ao filme o aspecto do documentário encomendado pelo governo cazaque que é suposto ser. Acima de tudo, deve-se à mestria de Sacha Baron Cohen, que criou um dos personagens mais hilariantes de que há memória e encontrou pedaços de um Cazaquistão fictício espalhados por uns US and A bastante reais.
Segue o texto sobre BORAT que tinha referido aqui, e que escrevi para a revista Única do semanário Expresso da semana passada.
Cazaquistão, EUA
A par da actualidade, a comédia torna-se cada vez mais dura e politicamente incorrecta. O que ontem era extremo tornou-se hoje mainstream, mercê da repetição que diminui o impacto dos primeiros contactos. O melhor exemplo de habituação pelo visionamento repetido encontra-se nas auto-promoções da SIC Notícias: aquelas imagens reais de crianças estropiadas e gente a ser espancada ao som de What A Wonderful World foram exibidas tantas vezes que já ninguém se ri quando as vê.
Borat Sagdiyev, aliás, Sacha Baron Cohen, humorista nascido em Londres no ano de 1971, percebeu há muito tempo que a realidade é o grande farnel da comédia. Não só no conteúdo, naquilo em que o humor se baseia, ou que simula e exagera, mas também na forma. O documentário falso é recurso com provas dadas no cinema, de This Is Spinal Tap (Rob Reiner, 1984) ao polémico e premiado Death Of A President (Gabriel Range, 2006), que, sem ser uma comédia, dá vontade de rir na cena em que Bush é baleado. Sacha pegou nesta abordagem e levou-a mais longe, explorando ao máximo o potencial provocatório que ela oferece numa espécie de “apanhados do inferno”.
Começou por dar nas vistas em 1998, com The 11 O’Clock Show, programa do qual também eram autores Ricky Gervais e Stephen Merchant. Ganhou autonomia com Da Ali G Show (2000) e o filme Ali G Indahouse (2002). Em Portugal foi visto pela primeira vez no videoclip de Madonna, Music, na pele do wigger Ali G, uma cortesia da rainha da Pop que Sacha haveria de agradecer por duas vezes: nos MTV EMAs de 2005, quando se referiu a ela como “aquele travesti”, e na edição deste ano, em que tentou vender-lhe um bebé baratinho.
Borat, o filme, é um clássico instantâneo, que irá ter repercussões na comédia ocidental como poucos tiveram depois dos Irmãos Marx ou Monty Python. O futuro do humor português também passa por Borat, na medida em que daqui a uns anos vamos assistir ao surgimento de comédias nacionais influenciadas por esta abordagem, que alguma crítica menos alerta irá considerar nova e original. Neste filme, uma delicada fábula sobre a masturbação protagonizada por este repórter cazaque convive com uma arrasadora sátira à sociedade americana. Está a tomar de assalto os EUA e grande parte do mundo, excepção feita ao Cazaquistão, cujo governo não concorda com a imagem que Borat passa do país quando refere, por exemplo, que os judeus são frequentemente atirados para dentro de poços.
Borat é capaz de despertar o pior de cada pessoa que entrevista, às vezes por oposição, outras por contágio. É um agente provocador, sabe quais os pontos a pressionar para obter certas reacções daqueles com quem interage. A comédia resulta involuntária quando o entrevistado, ao reagir de forma genuína, se transforma numa caricatura tão grande ou maior que Borat. A realidade já é uma caricatura de si própria, e, para parodiá-la, Sacha tem de dar mais um passo. Gesto no qual, de forma sempre surpreendente, é acompanhado pelo interlocutor, como o cowboy que, ao ouvir Borat dizer que no Cazaquistão é prática comum o enforcamento de homossexuais, confessa ter esperança que o mesmo aconteça nos EUA.
É redutor pensar na espantosa aceitação de Borat nos Estados Unidos como mais um indicador da viragem que o país supostamente atravessa, relacioná-la com as eleições intercalares em que os republicanos se sentiram como um muçulmano em Abu Ghraib. Grande parte da aclamação do filme por estudantes amigos da pipoca e do barril de cerveja deve-se sobretudo às alusões ao sexo com familiares e animais – prática aliás muito em voga não só no Cazaquistão de Borat, mas também nalguns estados americanos – e à realização de Larry Charles, que dá ao filme o aspecto do documentário encomendado pelo governo cazaque que é suposto ser. Acima de tudo, deve-se à mestria de Sacha Baron Cohen, que criou um dos personagens mais hilariantes de que há memória e encontrou pedaços de um Cazaquistão fictício espalhados por uns US and A bastante reais.


2 comentários:
Realmente compreende.se a razão q leva os "nossos" críticos a rebaixarem este "monumento": a mania do Politicamente Correcto, mania essa q o filme foge a sete pés. Vi.o ontem e, epah, fantástico! Ainda teve um suculento extra, q nunca antes tinha presenciado, q foi ver um chunguinha apanhar uma chapadorra dum senhor, diga.se, encorpado, na fila atrás da minha. Foi bom. Afinal, era um filme de comédia ou não? É preciso é entrar no espírito! Enfim.. NATAAAAAAL!
"O futuro do humor português também passa por Borat, na medida em que daqui a uns anos vamos assistir ao surgimento de comédias nacionais influenciadas por esta abordagem, que alguma crítica menos alerta irá considerar nova e original."
Esta merece um grande LOL! Lá pra 2050, ou não.
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