Borat continua a ser sovado pela crítica portuguesa
Escrevi na sexta-feira passada um artigo acerca de BORAT que foi publicado hoje na revista Única do jornal Expresso, contribuindo assim com a única opinião positiva (opinião, não crítica; não sou crítico de cinema nem faço tenções de o ser) acerca do filme publicada no semanário. Francisco Ferreira e Vitor Baptista Marques dão bolas pretas ao filme. O que dizer disto?Se de Francisco Ferreira não conhecemos as razões para a classificação, no caso de VBM estão bem explícitas nos poucos caracteres em que demonstra total desconhecimento dos territórios sobre os quais escreve. Esta passagem diz tudo: "(...) o unanimismo [da crítica internacional] é tanto mais incompreensível, porquanto o filme assenta em dois paradoxos: o de apresentar como politicamente incorrecto um discurso racista e sexista que já entrou na ordem do dia via "reality shows"; o de não conseguir satirizar a boçalidade do pretenso americano médio sem usar de forma acrítica o conjunto de estereótipos conceptuais que alegadamente a definem (veja-se como aqui se representa o terceiro mundo)." Fim de citação.
Primeiro, importa reparar na menção aos "reality shows" - cá está a obsessão da crítica com a influência televisiva no discurso cinematográfico, de que aliás já aqui tinha falado. Como se não fosse óbvio que os maiores avanços no tratamento dado a uma narrativa estão, desde há algum tempo, a ser feitos no domínio televisivo, e que é inevitável (e saudável) que acabem por influenciar o cinema (não me refiro, claro está, a "reality shows", mas a séries como LOST e 24, só para dar alguns exemplos; embora não se possa descurar o efeito que os "reality shows" têm na descodificação de conteúdos televisivos e cinematográficos por parte dos espectadores). Chama-se a isto evolução, coisa a que a maior parte da crítica cinematográfica do nosso país parece ser avessa, preferindo assumir um puritanismo a armar ao pingarelho que se torna cada vez mais previsível e entediante.
Mas - e voltando às palavras de Vitor Baptista Marques em particular - muito mais importante (e grave) é quando VBM apresenta os tais paradoxos sem perceber que é exactamente nessa dualidade que reside a raíz da comédia. Demonstra a perigosa mentalidade de quem vê racismo e sexismo quando o que existe da parte do comediante é o incorporar das mesmas características que pretende parodiar, de forma exagerada, em que as palavras e/ou acções alvos da sátira são elevadas ao absurdo, e assim expostas ao ridículo. Não entender isso é não entender nada acerca de comédia, e é contribuir para a confusão gerada por fundamentalistas ansiosos por impôr restrições ao humor, que tentam inclusive o aproveitamento de situações distintas - e tristes - como o caso Michael Richards para fazer valer os seus propósitos de censura (sobre este ponto também já aqui havia escrito).
Que não se goste do filme é coisa que me custa a aceitar, mas é claro que tenho de respeitar uma opinião fundamentada, tenha a ver com factos concretos ou com questões de sensibilidade. Ainda mais quando é de comédia que se trata - a piada de algo é bastante subjectiva, e a gargalhada de uns pode ser a repulsa de outros. Mas quando apresenta argumentos destes, rematando com um "Não haja dúvidas: a estupidez vende-se bem", VBM mistura a tal atitude sobranceira com uma conversa que poderia muito bem constar de um folheto do SOS Racismo, um daqueles mais descabidos, que acabam por prejudicar a denúncia de casos, esses sim, lamentáveis. Importa também não misturar o facto dos inúmeros processos de que os produtores de BORAT estão a ser alvo com o alegado e disparatado teor racista e sexista do filme. A ser verdade, por exemplo, que os naturais da povoação romena onde foram filmadas as cenas do Cazaquistão fictício de Borat não foram correctamente informados acerca do propósito das imagens em que iriam aparecer no filme, existe material para um debate acerca da ética subjacente a produções deste tipo. Mas isso não transparece no filme em si, e é dele que estamos a tratar.
Quando escrevi, faz hoje uma semana, o artigo acerca de BORAT para a Única, não se sabia ainda que a crítica portuguesa iria sovar o filme desta maneira. Se soubesse, na passagem em que digo "[Borat] está a tomar de assalto os EUA e grande parte do mundo, excepção feita ao Cazaquistão (...)" teria incluido também Portugal. Porque a nível, pelo menos, de crítica cinematográfica, e em particular no que respeita à comédia, é assim que Portugal está: ao nível do Cazaquistão. Não o Cazaquistão real, mas o de Borat - atrasado, conservador, e iludido.
Já agora: fiquei um pouco aborrecido ao ver que, do artigo que escrevi para a Única, foi inexplicavelmente cortada parte de uma frase, alterando-se desta forma o sentido que lhe tinha dado (e dando origem a uma falta de concordância do verbo com o sujeito que também não existia originalmente). Onde se lê:
"Grande parte da aclamação do filme por estudantes amigos da pipoca e do barril de cerveja deve-se sobretudo às alusões ao sexo com familiares e animais – prática aliás muito em voga não só no Cazaquistão de Borat, mas também nalguns estados americanos –, que dá ao filme o aspecto do documentário encomendado pelo governo cazaque que é suposto ser",
eu na realidade escrevi (a parte sublinhada é a que foi cortada):
"Grande parte da aclamação do filme por estudantes amigos da pipoca e do barril de cerveja deve-se sobretudo às alusões ao sexo com familiares e animais – prática aliás muito em voga não só no Cazaquistão de Borat, mas também nalguns estados americanos – e à realização de Larry Charles, que dá ao filme o aspecto do documentário encomendado pelo governo cazaque que é suposto ser."
Fica aqui a nota.
Que não se goste do filme é coisa que me custa a aceitar, mas é claro que tenho de respeitar uma opinião fundamentada, tenha a ver com factos concretos ou com questões de sensibilidade. Ainda mais quando é de comédia que se trata - a piada de algo é bastante subjectiva, e a gargalhada de uns pode ser a repulsa de outros. Mas quando apresenta argumentos destes, rematando com um "Não haja dúvidas: a estupidez vende-se bem", VBM mistura a tal atitude sobranceira com uma conversa que poderia muito bem constar de um folheto do SOS Racismo, um daqueles mais descabidos, que acabam por prejudicar a denúncia de casos, esses sim, lamentáveis. Importa também não misturar o facto dos inúmeros processos de que os produtores de BORAT estão a ser alvo com o alegado e disparatado teor racista e sexista do filme. A ser verdade, por exemplo, que os naturais da povoação romena onde foram filmadas as cenas do Cazaquistão fictício de Borat não foram correctamente informados acerca do propósito das imagens em que iriam aparecer no filme, existe material para um debate acerca da ética subjacente a produções deste tipo. Mas isso não transparece no filme em si, e é dele que estamos a tratar.
Quando escrevi, faz hoje uma semana, o artigo acerca de BORAT para a Única, não se sabia ainda que a crítica portuguesa iria sovar o filme desta maneira. Se soubesse, na passagem em que digo "[Borat] está a tomar de assalto os EUA e grande parte do mundo, excepção feita ao Cazaquistão (...)" teria incluido também Portugal. Porque a nível, pelo menos, de crítica cinematográfica, e em particular no que respeita à comédia, é assim que Portugal está: ao nível do Cazaquistão. Não o Cazaquistão real, mas o de Borat - atrasado, conservador, e iludido.
Já agora: fiquei um pouco aborrecido ao ver que, do artigo que escrevi para a Única, foi inexplicavelmente cortada parte de uma frase, alterando-se desta forma o sentido que lhe tinha dado (e dando origem a uma falta de concordância do verbo com o sujeito que também não existia originalmente). Onde se lê:
"Grande parte da aclamação do filme por estudantes amigos da pipoca e do barril de cerveja deve-se sobretudo às alusões ao sexo com familiares e animais – prática aliás muito em voga não só no Cazaquistão de Borat, mas também nalguns estados americanos –, que dá ao filme o aspecto do documentário encomendado pelo governo cazaque que é suposto ser",
eu na realidade escrevi (a parte sublinhada é a que foi cortada):
"Grande parte da aclamação do filme por estudantes amigos da pipoca e do barril de cerveja deve-se sobretudo às alusões ao sexo com familiares e animais – prática aliás muito em voga não só no Cazaquistão de Borat, mas também nalguns estados americanos – e à realização de Larry Charles, que dá ao filme o aspecto do documentário encomendado pelo governo cazaque que é suposto ser."
Fica aqui a nota.


9 comentários:
Usei essa imagem também no meu blog, não sei se passaste por lá, mas é deliciosa!!!
discordo completamente ctg
É assim a vida. Conforme já escrevi no blog do Markl, que está destroçado com a crítica, escrevo-o aqui: os críticos portugueses são uns "cinzentões".
Acho que é por esta altura os tais "críticos" estão a rever o filme rindo-se às escondidas!
Felizmente, já há muito que deixei de ligar ao que os críticos de cinema dizem, especialmente no que toca a comédias.
olha, eu gostei muito do filme!!
é um dedo na ferida!!!
Gostei do filme e recomendo-o a todos. Só uma nota. Pelo que tenho lido e, apesar de não ter sido exibido no Cazaquistão, o presidente do país já viu e diz que se fartou de rir e até gostou. Ainda disse algo contrário ao que tinha vindo a dizer: "Toda a publicidade é boa publicidade".
Palavras de confirmação foram: xrcviiu
JT
estou absoluutamente de acordo com a tua análise. Adorei o filme. Adorei a irreverencia, a ambiguidade, a comédia, a reflexão, a provocação.
plobo
Caramba, Filipe, tu tens um poder argumentativo absolutamente impressionante. Não admira o teu muito sucesso junto das raparigas.
Miguel Martins
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