A minha história (de)vida
O livro HISTÓRIAS DEVIDAS inclui histórias dos ouvintes do programa, mas não dos autores convidados. Soube entretanto pela Inês Fonseca Santos que talvez essas histórias venham a ser editadas, mas entretanto fiquem aqui com a minha.
Cuí
Nove horas em duas lanchas de seis metros, havia certas zonas do rio com mais terra que água, tinhamos de sair e puxá-las à força de braços. Quando chegámos eram as crianças que estavam à espera, espalhadas pela encosta junto à margem do Iriri. Descarregámos as lanchas em silêncio, enquanto os adultos começavam a aparecer, curiosos. Tinhamos sido avisados, não os olhem directamente nos olhos, mas todos tinham olhares que não permitiam outra coisa a não ser olhar para eles.
- 09/01/06.
Cuí
Nove horas em duas lanchas de seis metros, havia certas zonas do rio com mais terra que água, tinhamos de sair e puxá-las à força de braços. Quando chegámos eram as crianças que estavam à espera, espalhadas pela encosta junto à margem do Iriri. Descarregámos as lanchas em silêncio, enquanto os adultos começavam a aparecer, curiosos. Tinhamos sido avisados, não os olhem directamente nos olhos, mas todos tinham olhares que não permitiam outra coisa a não ser olhar para eles.
Chamavam a si próprios Ugurogmo, que significa eu e tu, viviam no céu, suportado por quatro estacas de madeira. Um dia as estacas partiram-se e eles caíram na Terra, junto com a lua e as estrelas, essas mais tarde devolvidas ao lugar por um pequeno pássaro chamado cuí. A Terra recebeu-os como eles agora nos recebiam: sem os braços abertos mas com um sorriso, o que já era bom sinal, tendo em conta que o último caso de canibalismo ocorrera ali há pouco mais de uma década.
Julho de 2002. Éramos sete e estávamos na floresta amazónica para filmar um documentário. Carlos Barreto, o realizador, único de nós a quem os índios nunca pediram tabaco, mas que acabaria por descobrir que lho roubavam da mochila. José Borges, o produtor, já ali tinha estado para negociar com os mais velhos as condições da nossa visita. Hernâni Borges, o assistente de realização, a quem o perigo de apanhar malária e as saudades da Internet atormentavam com igual intensidade. Orlando Alegria, director de fotografia, aquele de nós que ficou mais preocupado no dia em que se acabou a água não-contaminada que tinhamos levado para beber. Paulo Rosa, câmara, dono de um sangue frio que lhe permitiu sorrir quando um dos poucos índios que arranhava o português disse: “Pô, esse cara nem de noite pára de filmar nós, eu vou matar ele”. Quintino Bastos, que recolheu todos os sons da floresta, excepção feita ao mais exótico: o seu próprio ronco, enquanto dormia. E eu, o roteirista, como se diz no Brasil, à espera de perguntar ao Tximi, velho pajé da tribo, que planta era aquela que o mantinha acordado durante dias seguidos enquanto falava com os espíritos.
O sol descia e deixava-nos dois céus – o lá de cima, com a lua e as estrelas que o cuí tinha devolvido ao lugar, e o cá de baixo, igualmente calmo, reflectido na superfície do rio. Uma noite em que não havia espelho apontei a lanterna para o Iriri, e tive de lutar com os mosquitos que antes cobriam as águas de uma margem à outra. Dormíamos em redes penduradas nas árvores, paredes meias com o rio, ouvíamos o escarcéu que os jacarés faziam a dois metros de nós, quando vinham comer os restos da caça que os índios para ali deitavam.
Lembrei as palavras que o meu pai me tinha dito, ainda em Lisboa, antes de eu entrar para o avião: “Vão ser os melhores dias da tua vida.”
Houve uma tarde em que seguimos Tati, um dos caçadores, floresta adentro, o Barreto queria imagens de um índio a caçar. Caminhámos durante horas, até um ponto em que nenhum de nós saberia voltar sem a ajuda do Tati; e depois mais um pouco, até duvidarmos que mesmo ele fosse capaz de encontrar o caminho de regresso.
Um qualquer som, que só ele ouviu, e o Tati desapareceu por entre a vegetação densa. Ficámos sozinhos, sem saber onde estávamos, se é que alguma vez souberamos desde que tínhamos chegado à Amazónia. As horas passaram, nós sentados à espera, ninguém falou daquilo que estava a pensar, pensávamos todos o mesmo. Os sons da floresta eram mais que muitos, tão vivos quanto queríamos estar no fim daquele dia. Houve um pássaro pequeno que pousou ao pé de nós, talvez fosse o cuí; se tudo o resto falhasse, poderíamos pedir-lhe que nos levasse de volta para casa, como fizera à lua e às estrelas.
Antes mesmo do Tati voltar, com um ar satisfeito, antes de atirar um javali morto para o chão e fazer um gesto a pedir-me um cigarro, achei que talvez o meu pai tivesse razão, eram os melhores dias da minha vida, pelo menos por enquanto.
Julho de 2002. Éramos sete e estávamos na floresta amazónica para filmar um documentário. Carlos Barreto, o realizador, único de nós a quem os índios nunca pediram tabaco, mas que acabaria por descobrir que lho roubavam da mochila. José Borges, o produtor, já ali tinha estado para negociar com os mais velhos as condições da nossa visita. Hernâni Borges, o assistente de realização, a quem o perigo de apanhar malária e as saudades da Internet atormentavam com igual intensidade. Orlando Alegria, director de fotografia, aquele de nós que ficou mais preocupado no dia em que se acabou a água não-contaminada que tinhamos levado para beber. Paulo Rosa, câmara, dono de um sangue frio que lhe permitiu sorrir quando um dos poucos índios que arranhava o português disse: “Pô, esse cara nem de noite pára de filmar nós, eu vou matar ele”. Quintino Bastos, que recolheu todos os sons da floresta, excepção feita ao mais exótico: o seu próprio ronco, enquanto dormia. E eu, o roteirista, como se diz no Brasil, à espera de perguntar ao Tximi, velho pajé da tribo, que planta era aquela que o mantinha acordado durante dias seguidos enquanto falava com os espíritos.
O sol descia e deixava-nos dois céus – o lá de cima, com a lua e as estrelas que o cuí tinha devolvido ao lugar, e o cá de baixo, igualmente calmo, reflectido na superfície do rio. Uma noite em que não havia espelho apontei a lanterna para o Iriri, e tive de lutar com os mosquitos que antes cobriam as águas de uma margem à outra. Dormíamos em redes penduradas nas árvores, paredes meias com o rio, ouvíamos o escarcéu que os jacarés faziam a dois metros de nós, quando vinham comer os restos da caça que os índios para ali deitavam.
Lembrei as palavras que o meu pai me tinha dito, ainda em Lisboa, antes de eu entrar para o avião: “Vão ser os melhores dias da tua vida.”
Houve uma tarde em que seguimos Tati, um dos caçadores, floresta adentro, o Barreto queria imagens de um índio a caçar. Caminhámos durante horas, até um ponto em que nenhum de nós saberia voltar sem a ajuda do Tati; e depois mais um pouco, até duvidarmos que mesmo ele fosse capaz de encontrar o caminho de regresso.
Um qualquer som, que só ele ouviu, e o Tati desapareceu por entre a vegetação densa. Ficámos sozinhos, sem saber onde estávamos, se é que alguma vez souberamos desde que tínhamos chegado à Amazónia. As horas passaram, nós sentados à espera, ninguém falou daquilo que estava a pensar, pensávamos todos o mesmo. Os sons da floresta eram mais que muitos, tão vivos quanto queríamos estar no fim daquele dia. Houve um pássaro pequeno que pousou ao pé de nós, talvez fosse o cuí; se tudo o resto falhasse, poderíamos pedir-lhe que nos levasse de volta para casa, como fizera à lua e às estrelas.
Antes mesmo do Tati voltar, com um ar satisfeito, antes de atirar um javali morto para o chão e fazer um gesto a pedir-me um cigarro, achei que talvez o meu pai tivesse razão, eram os melhores dias da minha vida, pelo menos por enquanto.
- 09/01/06.


2 comentários:
já tinha gostado de ouvir.. agora gostei de ler!
Deve ter sido uma experiência, no mínimo, inesquecível. Boa descrição, Filipe.
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