Domingo, Janeiro 22, 2006

Reflexão sobre o dia de reflexão

O coro de apoios e críticas aos candidatos presidenciais, o circo que se convencionou chamar de campanha eleitoral, é o preço a pagar pela democracia. Se queremos escolher os nossos governantes, temos de gramar com isto.

Comportamentos normais, individuais ou colectivos, modificam-se a partir do momento em que são observados. Heisenberg explicou, Michael Frayn fez a peça, esta campanha, mais uma vez, demonstrou. Uma coisa é apertar a mão ou dar uma beijoca a um candidato. Outra completamente diferente é apertar a mão ou dar uma beijoca a um candidato em frente às câmaras.

Não fossem os jornais e as televisões, e as demonstrações de apoio por parte do eleitorado aos seus candidatos seriam bastante mais refreadas. As críticas também não seriam tão acirradas. Um comentário para os nossos botões, a propósito de um candidato que passa, não é nada comparado com um aparte captado por uma câmara. Falar para uma lente, ir ao confessionário da quinta ou do quartel, é ter a hipótese de ser escutado lá em casa. A possibilidade aumenta quanto mais interessante, polémico, determinado, emocionado for o comentário, ó vizinha, veja hoje as notícias que eu apareço lá a dizer mal do outro. Quem elogia ou protesta pode até estar a trinta metros do desfile de campanha, mas a edição de uma sala de montagem esbate as distâncias, e o comentário parece ter sido feito nas barbaças do candidato, a quem a presença das câmaras também influencia, condiciona, manipula e torna-se meio de manipulação.

Tudo é amplificado, mixado com as sondagens, pontapés do Marco em forma de comício, uma barulheira ensurdecedora que se intromete no discernimento dos indecisos e dos convictos. E, com a quantidade de eleições que temos tido, a narrativa da notícia e da não-notícia está apuradinha. É a reality-showzação da democracia, só que os portugueses não podem (ainda) votar lá de casa.

Hoje houve silêncio. Chama-se ‘dia de reflexão’ porque nos permite pensar, não só sobre a nossa intenção de voto, mas sobre seja o que for, coisa que, nos últimos tempos, tem sido impossível por causa do ruído da campanha. O ideal era este sillêncio durar mais uns dias, uma semaninha, digamos. Uma semana de reflexão, para podermos depois gozar de forma decente esta liberdade gostosa que é votar, sem ser com aquela sensação do “vamos lá despachar isto que eu já não os posso ouvir”.

(imagem daqui)

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