quinta-feira, agosto 16, 2018

Aretha

“Anda, Hannibal Lecter, vamos debater essa tua apetência pelos miolos humanos”

Defender a vinda da Le Pen à Web Summit com a falácia da “liberdade de expressão” é tão arrevesado quanto o convite em si. Como sempre acontece quando se deita as mãos a uma ferramenta que não se conhece, tenta dar-se-lhe um uso para o qual não serve. Defender discurso de ódio e intolerância com o estandarte da “liberdade de expressão” faz tanto sentido quanto usar um berbequim para martelar um prego.
Esse tipo de argumentário é duplamente pernicioso, no sentido em que coloca o discurso de ódio ao mesmo nível do exercício da verdadeira liberdade de expressão. Porque a fragiliza. Colocar na mesma prateleira um discurso manifestamente xenófobo, e, por exemplo, uma denúncia contra regimes totalitários, faz mossa à denúncia.
- Vais levar aqueles mirtilos?
- Eh pá, não; estão ao lado do frasco de banha, também devem ser meninos para me rebentarem com a dieta.
O que é dito tem um peso contextual: depende do lugar, da situação em que é dito, da intenção com que é dito. Se o Hitler tivesse dito metade do que disse num espéctáculo de comédia, por exemplo, seria recebido com apupos e vaias, “não tens piada, ó bigodes” - porque aqueles que o ouvissem e divisassem verdades naquelas palavras, estariam a tomar notas e a pensar “este indivíduo está a falar-me ao coração”; e aqueles que percebessem que a única punchline que ia sair dali era um corrupio nas linhas férreas até Auschwitz, Treblinka e Birkenau, iriam à bilheteira, pediriam o dinheiro de volta, e iriam escrever nos seus murais “Aquele bigodes, apesar de vegetariano, é um indivíduo perigoso. E também tirei uma selfie com ele”.
Como Hitler vociferou o que vociferou de cima de um palanque, num contexto de seriedade, só se riram aqueles que nem conseguiam ouvi-lo porque estavam demasiado absortos no ridículo daquele bigode. Os outros, puseram-se a perguntar: “Este jovem empreendedor terá TedTalks no You Tube? Espera, eu não tenho um vizinho chamado Goldstein? Quanto é que paguei este mês de gás?”
No argumentário do “deixem a Le Pen falar”, têm cabido também pensamentos do tipo: “é importante debater com pessoas que têm ideias diferentes das nossas”. Esta é uma etiqueta preguiçosa, comodista. Pela lei do menor esforço, dá jeito meter tudo nesse grande saco que são “as ideias diferentes das nossas”. Mas, se quisermos usar de algum bom-senso (é uma canseira, eu sei), consegue-se perceber que há inúmeros tipos de “ideias diferentes das nossas”, e que há “ideias diferentes das nossas” que não vale a pena debater. Se vierem com a conversa, por exemplo, de que a Terra é plana, o único debate que tal convicção deverá suscitar será sobre qual o estabelecimento de cuidados psiquiátricos mais indicado para internar quem diz tamanha enormidade.
Cruzando-nos com Hannibal Lecter, é de debater a legitimidade do seu processo de abastecimento do frigorífico? “Não te contentas com uma lasanha do Lidl, Aníbal? Tens de matar uma pessoa e fritar-lhe os miolos com ovos mexidos, não é? Não concordo nada com isso, mas vamos lá debater essas tuas ideias diferentes.”
Outro argumento falacioso é aquele do “vamos deixá-los falar para que se perceba que têm ideias perigosas”. Como se a História não tivesse já exemplos mais do que suficientes do perigo dos discursos de ódio. É, infeliz e inevitavelmente, fácil de perceber a necessidade de lembrete: conhecer a História, aprender com os erros do passado, dá trabalho; faz parte do processo de infantilização em curso, esta ideia de que tudo está a acontecer pela primeira vez, e que o património de noção granjeada ao longo de gerações é para deitar fora. Nesta altura, urge sublinhar: é exactamente para preservar a liberdade de diálogo que os ideais totalitários não se discutem - combatem-se. Mais atenção haja à História e não a histórias da carochinha.
Não se atirem os costados da liberdade da expressão para a lama, pondo-a ao lado da propagação da ignorância, do incitamento a outra violência que não seja aquela contra uma máquina que já nos comeu 3 euros e continua sem deitar a lata de gasosa cá para fora. Por incrível que pareça - e vão ter de ser fortes, isto é uma coisa terrível, no sentido em que não dá jeito nenhum para quem se acomodou numa visão bipolarizada do mundo - as coisas não são só pretas nem só brancas.
E já temos exemplos que cheguem para perceber que há tons de cinzento que resultam, invariavelmente, em merda da grossa.

quarta-feira, agosto 15, 2018

terça-feira, agosto 14, 2018

Pelos vistos, é possível não se ser “suficientemente lésbica”.
Para cada quilómetro que falta percorrer em questões de identidade de género, há uns bons quilómetros a palmilhar no que respeita a não ser profundamente estúpido.

segunda-feira, agosto 13, 2018

Grande guitarrista, grande pessoa, talento e coração enormes. Deixa saudades. Até sempre, Phil.

sexta-feira, agosto 10, 2018

Poetas que escrevem sobre poesia
são como cirurgiões a operar
um bisturi.

segunda-feira, agosto 06, 2018

A Sara Moura fez esta pérola. Quero!

terça-feira, julho 31, 2018

sexta-feira, julho 27, 2018

quinta-feira, julho 26, 2018

Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke num dos cenários de 2001: A Space Odyssey.
Stanley Kubrick faria hoje 90 anos.

quarta-feira, julho 25, 2018

Fazer cinema em Portugal é complicado. Fazer cinema em Portugal, com apoios estatais, é complicado. Um filme como Linhas de Sangue nunca receberia subsídio do ICA. O ICA só subsidia um tipo de filme. Ou meia dúzia, vá; mas há todo um vasto leque que nunca, mas nunca, seria nem será sequer considerado. Acontece que há quem queira fazer este tipo de filme; acontece que há público para outros tipos de cinema. Há público sequioso por ver outro tipo de cinema, feito cá. O simples facto de LINHAS DE SANGUE existir é motivo de celebração. Porque houve malta que pegou na sua paixão e fez acontecer, provou que o impossível é um bambino. LINHAS DE SANGUE será tão mais um marco quantas mais futuras conquistas inspirar. Um primeiro e endiabrado bólide a rasgar asfalto numa estrada que se quer longa, até perder de vista. A estreia é já amanhã, celebremo-la onde deve ser celebrada, que é nas salas de cinema. Parabéns, Manuel Pureza, Sérgio Graciano, e todos os envolvidos neste filme. Vocês fizeram acontecer.

‪Kill’em All, 35 anos.‬

Este é, provavelmente, o maior espectáculo de sempre que não presenciei.
O que é que este mago diz por volta dos 11 segundos? "Gregory"?

terça-feira, julho 24, 2018

Isto é tipo assim uma cena de “o fim do mundo está próximo”, não é? Tal e qual como está, com os risos em fundo, a música unts-unts-unts pateta. Aquele momento nos filmes-catástrofe em que há uma sequência de imagens e notícias dando conta da proximidade da ameaça, dos primeiros sinais, ai que está-se mesmo a ver que vem aí borrasca da grossa, esse tipo de prenúncio. Este video seria aquele a fazer um Dwayne virar-se para os seus detractores - malta que julga que ele está maluquinho por achar que vem aí o fim do mundo -, apontar para a televisão e gritar: “Vêem?! Eu tinha-vos dito! Isto é a prova! Tendas a voar! O que é que precisam mais para acreditar?? Prédios a voar? Pois estejam descansados: se não fizermos nada para impedir o que aí vem, prédios a voar é exactamente o que vamos ver a seguir!”

domingo, julho 15, 2018

Que noitaça tão brava. Que festa tão selvagem e bela. Love is a battlefield. Obrigado a todos os que celebraram connosco! Obrigado, amigos!

sexta-feira, julho 13, 2018

Quem é que terá um capítulo do seu próximo romance publicado na prestigiada revista Luvina, que vai sair durante a próxima Feria Internacional del Libro de Guadalajara, México, em Novembro, quem é? Pronto, vim só aqui criar o chamado buzz. Saludos!

quinta-feira, julho 12, 2018

FIFA proíbe televisões de focarem "mulheres atraentes" nas bancadas

Por isso, já sabem, meninas: se forem filmadas nos jogos do Mundial, é porque a FIFA vos considera Fionas do Shrek.

No meu “Há sempre tempo para mais nada” (2015)

A Cristas anda nos jornais a falar de cultura.
Estamos mesmo na silly season.

Das identidades secretas:
“Funciona com o Clark Kent, porque não comigo?”

terça-feira, julho 10, 2018

sábado, julho 07, 2018

O Mestre Steve Ditko partiu para um dos muitos planos de existência que criou. Não concebo um mundo sem a sua marca. A sua obra é e será sempre parte fundamental do que sou. Obrigado por tudo.

sexta-feira, julho 06, 2018

John Byrne, um dos artistas que mais marcou a minha relação com a banda desenhada, faz hoje 68 anos.